A Idade Média foi um período intermediário em uma divisão esquemática da história da Europa, marcadamente influenciado pela Igreja. Não foi um período de trevas, como muitos professores ainda ensinam. Foi nessa época que surgiram as universidades e as escolas. Embora comprovadamente repleto de guerras, fomes e pestes, qual outro período não teve seus próprios conflitos? Esse tempo tem suas características específicas, assim como todas as outras épocas. A Igreja desempenhou um papel proeminente durante a maior parte da Idade Média.
É importante ressaltar que nem toda a Europa foi homogeneamente feudal, como muitas vezes imaginamos. Existiam várias formas de feudalismo, que variavam de região para região. Na verdade, o sistema, tal como o conhecemos, funcionou plenamente apenas em algumas regiões da França medieval.
A sociedade era estática, pois praticamente não havia mobilidade social, sendo dividida em três estamentos: povo, clero e nobreza. O clero tinha uma função basicamente espiritual, mas exercia forte influência política, especialmente após as Reformas Gregorianas. Era a classe mais culta e muito rica, possuindo vastas propriedades, muitas vezes doadas por reis ou nobres aos conventos. Conseguia sempre justificativas religiosas para impor ou persuadir a sociedade a aceitar suas decisões.
"A ordem eclesiástica forma um só corpo, mas a divisão da sociedade compreende três ordens. A lei humana distingue duas condições. O nobre e o não-livre não são governados por uma lei idêntica. Os nobres são os guerreiros e protetores da igreja. Defendem a todos os homens do povo, grandes ou modestos, e também a si mesmos. A outra classe é a dos não-livres. Esta desgraçada raça nada possui sem sofrimento. Provisões e vestimentas são providas para todos pelos não-livres, pois nenhum homem livre é capaz de viver sem eles. Portanto, a cidade de Deus, que se crê única, está dividida em três ordens: alguns rezam, outros combatem e outros trabalham."
— Adalberto, Bispo de Laon. In: Boutruche, R. Senhorio e Feudalismo. Madri: Siglo Veintiuno, 1972.
A nobreza era a classe guerreira, proprietária de terras, cujos títulos e propriedades eram hereditários. Também pertenciam a essa classe os senhores feudais, possuidores dos feudos. O povo, por sua vez, era composto em sua maioria por servos e vilões. Os servos não tinham posse da terra; trabalhavam nela e estavam presos a ela, mesmo que mudasse de dono. Embora suas condições de trabalho fossem semelhantes às dos escravos, não podiam ser vendidos. Trabalhavam em troca de proteção e do direito de cultivar a terra para sua subsistência. Escravos eram raros na Europa medieval, sendo encontrados apenas nas regiões próximas ao Mediterrâneo.
Os servos não podiam abandonar a terra, ao contrário dos vilões. Descendentes dos pequenos proprietários de terra do Império Romano, recebiam tratamento melhor que os servos quando entregavam suas terras aos senhores feudais em troca de proteção. Muitas vezes, eram pressionados a vender ou doar suas terras (chamadas de terras alodiais) aos senhores.
Os camponeses pagavam várias obrigações:
- Corvéia: Trabalho obrigatório no manso senhorial (terras do senhor feudal) por alguns dias da semana.
- Talha: Parte da produção entregue ao senhor feudal.
- Banalidade: Taxa pelo uso do forno, do lagar e do moinho.
- Censo: Pagamento em dinheiro pelos vilões e homens livres.
- Capitação: Imposto cobrado por pessoa entre os servos.
- Mão Morta: Imposto cobrado da família do servo falecido para garantir o direito de continuar utilizando a terra.
- Tostão de Pedro: O dízimo.
- Formariage: Taxa de casamento entre nobres ou seus parentes. No sul da França, o senhor poderia exigir o direito de passar a noite de núpcias com a noiva, prática condenada pela Igreja.
- Albergagem: Obrigação dos servos de hospedar seus senhores quando necessário.
Nem todas as regiões estavam sob domínio senhorial; os burgos, por exemplo, eram cidades livres do predomínio dos nobres.
Havia basicamente três formas de senhorio:
- Senhorio doméstico ou pessoal: Relacionado aos servos.
- Senhorio banal ou político: A vassalagem.
- Senhorio da terra: O fundiário.
A sociedade medieval foi fortemente marcada pelas relações de suserania e vassalagem. A atribuição de um feudo envolvia uma série de atos solenes. O vassalo prestava homenagem ao suserano, ajoelhando-se, com a cabeça descoberta e sem espada, colocando suas mãos entre as mãos do senhor e proferindo as palavras de juramento. Em seguida, o senhor permitia que ele se levantasse, beijava-o (osculum¹) e realizava a investidura, entregando um objeto simbólico, como um punhado de terra, um ramo, uma lança ou uma chave, representando a terra concedida.
Os laços de suserania e vassalagem uniam toda a nobreza feudal. A cerimônia de vassalagem era descrita assim:
"O vassalo, ajoelhado, colocava suas mãos entre as mãos do senhor ('imissio in manus') e jurava-lhe fidelidade. Além disso, o vassalo comprometia-se a prestar ao senhor serviços militares, oferecer parte de sua colheita e contribuir para o dote das filhas do senhor, além de outras obrigações. Por sua vez, o senhor se comprometia a proteger o vassalo e a ceder-lhe uma porção de terra (o feudo ou domínio) para que este pudesse se sustentar."
— BLOCH, Marc. A Sociedade Feudal. 2ª ed. Lisboa: Edições 70, 2001.
As redes de vassalagem e suserania eram extensas, e o maior suserano era o rei. As moedas eram raras, e o escambo predominava. Em resumo, a economia feudal era:
- Voltada para a autossuficiência, baseada principalmente na agricultura.
- Sustentada pelos tributos pagos pelos servos.
- Apoiada em um comércio local pouco dinâmico.
¹Osculum era um beijo usado entre homens como sinal de parentesco. As relações de parentesco eram muito valorizadas na época. A força de um rei era medida pelo número de parentes ou vassalos que possuía.



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